Passar no vestibular é um privilégio do qual poucos têm o prazer de usufruir desde os anos 60, quando a competição começou a ficar mais acirrada. Um estudo do perfil dos calouros de 1965 da USP revelou que 65,71% deles fez cursinho antes de entrar na faculdade. Entre os que passaram em medicina esse número subia 94,44%. Eles fizeram 2 anos de cursinho, em média. Essa associação entre sucesso ao prestar o vestibular e a realização de cursinhos preparatórios se tornou cada vez mais forte até chegarmos ao atual consenso de que só entra em uma boa universidade pública quem faz um bom cursinho. "Para que não ocorresse uma seleção sócio-econômica seria necessária a existência de uma rede de cursinhos públicos e gratuitos, o que, no Brasil, inexiste. É no combate a essa carência que surgem os cursinhos populares", diz Bacchetto.
Entre os cursinhos populares e maior visibilidade na região metropolitana de São Paulo muitos tiveram origem em organizações estudantis uspianas. Alguns dos professores inclusive estudaram USP e anseiam por ajudar os alunos a alcançar o sonho da universidade, como o professor Marcos "Me formei na USP em 1985, vim de escola pública. Aqueles eram outros tempos. Agora temos que suprir a ausência da boa educação pública para promover uma melhoria na vida desses alunos", diz.
Os objetivos dessas organizações divergem. As reivindicações vão desde a criação de cotas para afrodescendentes, no caso da Educafro e do Núcleo de Consciência Negra da USP, e para alunos provenientes de escolas públicas, como pede o MSU. Em comum, todos eles proporcionam preços acessíveis com o objetivo de colocar o aluno na universidade. Essa filosofia também faz parte do Cursinho da Poli (Escola Politécnica da USP), e da APROVE - Associação de Professores para o Vestibular.
Resignação
No entanto, mesmo com essas oportunidades existem jovens que não possuem perspectivas sobre o que fazer ao término do Ensino Médio. Nas duas escolas visitadas pela reportagem, muitos alunos não souberam dizer o nome de nenhum programa de benefício ao recém-formado e futuro universitário. Mesmo com uma ligeira melhora no padrão do ensino público, os alunos continuam desmotivados. "Quando terminar o colégio eu quero é ter independência financeira, trabalhar. Ter meu próprio dinheiro e não perder tempo estudando", declarou Fabíola Rodrigues, 18 anos, cursando último ano do colegial no Esther Medina. Entre os alunos formados a opinião também é essa. "Nunca ouvi falar em vestibular enquanto estava no colégio", diz Julio, "Lá na Emiko (Fujimoto, escola estadual onde ele estudou, em Mauá) os professores não nos estimulavam por falta de recursos. Quando você vive em um ambiente carente a vontade de estudar não é predominante, o trabalho precoce é valorizado por causa da probabilidade de você conseguir posses mais rapidamente", lamenta. "Os bens materiais são mais valorizados do que o próprio bem-estar". Infelizmente, esse é o Brasil que não deve ser.