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[terça-feira, outubro 31, 2006]

Admirável Vida Nova - parte3

O Pobre e o Rico

Uma das questões mais discutidas por beneficiários do ProUni e de outras modalidades de bolsas estudantis trata do choque de culturas entre o novo aluno e o ambiente universitário. Nas instituições pagas a diferença é mais visível, uma vez que normalmente há alunos de famílias abastadas convivendo diariamente com colegas de origem carente. Julio diz que atritos não faltam entre essas pessoas. "Já soube de casos de preconceito na turma de Letras da minha aculdade. Uma aluna mais rica falou para uma bolsista que ela não tinha direito de estar lá, não tinha 'moral' porque o governo estava ajudando". E emanda: "essa medida provocou um choque do qual ainda veremos as conseqüências".

Existem alternativas para tentar conter esse choque promovidas por ONGs dedicadas à inclusão social dos universitários carentes, como a Educafro, cursinho pré-vestibular mantido por freis franciscanos especialmente voltado para afrodescendentes, e o MSU - Movimento dos Sem Universidade. Ambas as instituições oferecem, além dos cursinhos, palestras sobre inclusão social e cidadania. "É importante o aluno estar preparado para o que ele pode enfrentar lá fora. Temos que conscientizá-lo de todas as formas possíveis quanto ao exercício da cidadania", diz marcos Silva, professor de geografia voluntário do Núcleo Grande Otelo da Educafro de Diadema. A coordenação nacional do MSU também tem como característica essa política de engajamento social, a ponto de ter uma carta escrita por seu coodenador, Sérgio José Custódio, à Folha de São Paulo publicada no painel do Leitor de 01/05/2005.

A carta de Custódio foi escrita em 2005, mas trata de uma situação que se agravou ao longo de anos dedefasagem e deterioração do ensino público no Brasil. "No bojo dessa situação surgiram os cursinhos alternativos. Baseados no princípio da igualdade, eles procuram nivelar as oportunidades do estudante de menor renda com as daquele que formado em uma escola média de melhor nível, e que pode pagar por um cursinho comercial", diz João Galvão Bacchetto, psicólogo especializado em orientaçõ profissional pelo serviço de Orientação Profissional do Instituto de Psicologia da USP.


por Jacqueline * 5:34 PM

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Admirável Vida Nova - parte 4 (final)

Competição desigual


Passar no vestibular é um privilégio do qual poucos têm o prazer de usufruir desde os anos 60, quando a competição começou a ficar mais acirrada. Um estudo do perfil dos calouros de 1965 da USP revelou que 65,71% deles fez cursinho antes de entrar na faculdade. Entre os que passaram em medicina esse número subia 94,44%. Eles fizeram 2 anos de cursinho, em média. Essa associação entre sucesso ao prestar o vestibular e a realização de cursinhos preparatórios se tornou cada vez mais forte até chegarmos ao atual consenso de que só entra em uma boa universidade pública quem faz um bom cursinho. "Para que não ocorresse uma seleção sócio-econômica seria necessária a existência de uma rede de cursinhos públicos e gratuitos, o que, no Brasil, inexiste. É no combate a essa carência que surgem os cursinhos populares", diz Bacchetto.

Entre os cursinhos populares e maior visibilidade na região metropolitana de São Paulo muitos tiveram origem em organizações estudantis uspianas. Alguns dos professores inclusive estudaram USP e anseiam por ajudar os alunos a alcançar o sonho da universidade, como o professor Marcos "Me formei na USP em 1985, vim de escola pública. Aqueles eram outros tempos. Agora temos que suprir a ausência da boa educação pública para promover uma melhoria na vida desses alunos", diz.

Os objetivos dessas organizações divergem. As reivindicações vão desde a criação de cotas para afrodescendentes, no caso da Educafro e do Núcleo de Consciência Negra da USP, e para alunos provenientes de escolas públicas, como pede o MSU. Em comum, todos eles proporcionam preços acessíveis com o objetivo de colocar o aluno na universidade. Essa filosofia também faz parte do Cursinho da Poli (Escola Politécnica da USP), e da APROVE - Associação de Professores para o Vestibular.

Resignação

No entanto, mesmo com essas oportunidades existem jovens que não possuem perspectivas sobre o que fazer ao término do Ensino Médio. Nas duas escolas visitadas pela reportagem, muitos alunos não souberam dizer o nome de nenhum programa de benefício ao recém-formado e futuro universitário. Mesmo com uma ligeira melhora no padrão do ensino público, os alunos continuam desmotivados. "Quando terminar o colégio eu quero é ter independência financeira, trabalhar. Ter meu próprio dinheiro e não perder tempo estudando", declarou Fabíola Rodrigues, 18 anos, cursando último ano do colegial no Esther Medina. Entre os alunos formados a opinião também é essa. "Nunca ouvi falar em vestibular enquanto estava no colégio", diz Julio, "Lá na Emiko (Fujimoto, escola estadual onde ele estudou, em Mauá) os professores não nos estimulavam por falta de recursos. Quando você vive em um ambiente carente a vontade de estudar não é predominante, o trabalho precoce é valorizado por causa da probabilidade de você conseguir posses mais rapidamente", lamenta. "Os bens materiais são mais valorizados do que o próprio bem-estar". Infelizmente, esse é o Brasil que não deve ser.


por Jacqueline * 5:30 PM

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[terça-feira, outubro 03, 2006]

Admirável Vida Nova - parte 1 (Exclusão Estudantil)

Como o tema do blog é exclusão social de todas as formas possíveis, resolvi publicar a reportagem realizada pelas minhas amigas e eu no último semestre, sobre a exclusão do estudante pobre das universidades, sua incapacitação (segundo os "entendidos") para prestar o vestibular etc. Como é um texto longo, publicarei em 4 partes - duas hoje e duas semana que vem. Segue a primeira parte:

Admiravel vida nova (parte 1)

Ensino Médio concluído. É hora de decidir o que fazer da vida. O que projetar para o futuro? Que profissão escolher. Há oportunidade ou não para escolhê-la? Vinícius Gabriel Ribeiro, 18 anos, terminou o colégio e pensa em trabalhar. Paulo César das Neves, da mesma idade de Vinícius, espera ansiosamente pelo resultado do vestibular da USP. Ambos têm planos para o futuro, mas apesar da semelhança de idade, seus caminhos são opostos. Vinícius estudou em escola pública. Paulo, em particular. Quais seriam as chances de Vinícius e Paulo ingressarem em uma universidade? Certamente não seriam as mesmas. A desigualdade quanto às oportunidades de acesso ao Ensino Superior é assunto de inúmeras discussões sobre de cunho político-social.O Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de educação (Consed) divulgou em junho de 2001 dados que comprovam que a probabilidade de um aluno que conclui o Ensino Médio em escola pública ingresar em uma instituição universitária gratuita mantida pelo governo federal é de 1 em 20. Já a probabilidade de um aluno de escola privada fica em torno de 1 a cada 2,6 vezes. As universidades não absorvem mais que 5% dos alunos egressos de escolas públicas. Em São Paulo, o número não passa de 3%. Por que o jovem carente tem tanta dificuldade de acesso à universidade?Para os jovens entrevistados na E.E. Cidade de Osaka, localizada na Zona Leste de São Paulo, e na E.E. Profª Esther Medina, em Santo André, as causas financeiras são predominantes na decisão por não cursar o Ensino superior. Outros fatores também foram citados, tais como falta de tempo, necessidade de trabalhar para complementar a renda familiar; falta de incentivo por parte da família e da escola e a crença de que ter um diploma não garante sucesso profissional. Há um certo fator primoradial subjetivo: um certo complexo de inferioridade que os impede de prestar vestibular por medo do fracasso. "Faculdade para mim é um sonho muito distante. Trabalhar em um shopping como vendedora já seria a realização do meu sonho", declarou Heloísa Mantovani, 17 anos, aluna do 2º colegial do Esther Medina que mora com a mãe faxineira e o pai desempregado.

Texto escrito por: Cintia Cristina Araújo Fernanda Dantas de Castilho e Jacqueline Plensack VianaNa continuação: ProUni, política de cotas e preconceito contra os bolsistas.


por Jacqueline * 4:20 PM

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Admirável Vida Nova - parte 2

Aqui está a segunda parte da reportagem sobre exclusão social no Ensino Superior, como prometido.


"PobrUni"

Alguns alunos conseguem fugir dessa triste realidade por meio de serviços de auxílio ao estudante carente e programas governamentais como o Escola da Família, mantido pelo governo do Estado de São Paulo, e o ProUni (Programa Universidade Para Todos), medida provisória criada em 2004 pelo governo federal. Para se candidatar a uma bolsa é obrigatório fazer a prova do ENEM e ter estudado durante todo o Ensino Médio em escola pública ou como bolsista em colégio particular. No ano em que foi criado, o ProUni beneficiou 112 mil estudantes. Julio de Melo Costa, um motoboy de 26 anos, foi um deles.

Estudante de Ciências da Computação na Universidade São Judas, Julio acredita que o apoio do governo foi decisivo para a inclusão dos jovens nas universidades privadas. "O ProUni foi uma das melhores coisas que o governo ofereceu, pois dá chance aos mais humildes". Ele não é o único que pensa assim. No site de relacionamentos do orkut existem cerca 38 comunidades de beneficiados. A maior delas é "Viva o ProUni", que tinha 3.488 membros até maio passado. Nela, eles discutem as vantagens e as desvantagens da medida provisória, e trocam experiências sobre a vivência em um mundo tão diferente do qual estavam acostumados. Há até um apleido carinhoso para o programa, chamado de "PobrUni", numa alusão à origem da maioria dos estudantes.


Texto escrito por Cintia Cristina Araújo, Fernanda Dantas de Castilho e Jacqueline Plensack Viana.

Bem, como não coube hoje, na próxima semana a continuação da reportagem tratará da política de cotas e da discriminação (choque de culturas) entre os alunos pobres e os mais abastados.


por Jacqueline * 4:15 PM

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[terça-feira, setembro 26, 2006]

Certa vez, acompanhei meu tio a uma festa infantil super chique no bairro de Pinheiros. A rua onde a "chefinha" dele morava era uma daquelas de fazer até a pessoa mais bem vestida do mundo se sentir um autêntico "lixo". Porém, quando estávamos a aproximadamente um quarteirão de distância ouvi uma voz rouca e urgente.
- Vê se tem mais comida aí.

Era uma mulher que aparentava ter entrado havia pouco tempo na terceira idade, toda vestida de preto, acompanhada de três crianças. Seriam elas seus netinhos? Pelo que pude observar nenhuma delas estava apropriadamente agasalhada para a noite fria de agosto de 2003. Só me restava seguir em frente, meio que chorando entre um primo, uma irmã, um tio com um embrulho gigante nos braços e uma avó italiana muito afobada. A vida segue seu curso.

Eu tinha acabado de completar 15 anos e estava começa a perceber o mundo ao meu redor. Depois começei a coletar dados, tamanha a lembrança do fato. Descobri, por exemplo, que o Censo de 2000 revelou que apenas em Santo André cerca de cem mil pessoas passam fome todos dias. Como isso é possível de acontecer no Estado mais rico do país?

Alguém consegue me explicar o que está acontecendo nesse país?
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Assistam
"Olhos Pasmados" e tirem suas próprias conclusões.
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1483
Todos os direitos são de propriedade dos realizadores do filme.


por Jacqueline * 6:39 PM

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